" A Visão de Mundo Cristã "
Resumo descritivo - (Parte VI - págs. 111-125)
Do livro: A Epopéia do Pensamento Ocidental - de Richard Tarnas
Por Samara Elizabeth
A visão de mundo cristã, com influência preponderante desde a queda de Roma, continua a afetar ainda hoje de modo menos evidente, mas também significativo, a cultura do Ocidente, mesmo em aspectos aparentemente mais leigos.
O Jesus que a História veio a conhecer é o que foi retratado no Novo Testamento, por autores que viveram uma ou duas gerações depois do período abrangido pelas narrativas. São esses textos que servem de base para o estudo do fenômeno cristão, para desvendar em que o Ocidente cristão acreditava ser verdade em relação ao mundo e o lugar do ser humano nesse mundo.
O Monoteísmo Judaico e a Divinização da História
A história, missão e religião do povo hebreu eram, certamente, diferentes de qualquer outra no mundo antigo. Em meio às demais nações, muitas vezes mais poderosas e avançadas do que a sua, os hebreus consideravam-se o Povo Escolhido, cuja história teria conseqüências espirituais no mundo inteiro. Embora outras tribos e nações venerassem inúmeras divindades da Natureza, os hebreus acreditavam ter um relacionamento singular e direto com o único Deus Absoluto, o Criador do mundo e condutor da história judaica.
Eles realmente acreditavam que sua história era a seqüência e o reflexo da Criação, quando Deus fez o mundo e o homem à sua imagem.
Durante o Êxodo, quando Moisés libertou os hebreus da escravidão no Egito, foi estabelecido o acordo sagrado pelo qual Israel identificava e reconhecia seu Deus, Iavé, como o Salvador da história. Ao aceitar os mandamentos de Deus revelados no Monte Sinai, os hebreus comprometiam-se a obedecer ao seu Deus e à sua vontade insuperável, e assim Deus - criador e libertador - asseguraria um destino glorioso ao seu povo, se esse permanecesse fiel e obediente à sua lei. O pré-requisito para gozar o poder salvador no mundo era justamente o temor e confiança no Senhor. Os judeus haviam recebido um chamamento divino para reconhecer a soberania de Deus sobre o mundo e colaborar na realização de seu objetivo - trazer a paz, a justiça e a realização para toda a Humanidade. A " Terra Prometida" de Israel, se expandiria para a instauração do Reino de Deus abrangente a toda a Humanidade. Esta fé, esta esperança no futuro, este singular impulso conduzido pelos profetas e registrado de maneira convincente, na prosa e na poesia da Bíblia, sustentou o povo judeu por dois milênios.
Não muito depois da morte de Jesus, os discípulos romperam com os velhos conceitos e deram início a uma nova conceituação de Deus e da Humanidade. As profecias judaicas podiam agora ser compreendidas: o Messias não era um rei profano, mas um Rei espiritual; o Reino de Deus não era uma vitória política para Israel, mas uma divina redenção para a Humanidade, trazendo uma vida nova banhada pelo espírito de Deus. Numa paradoxal combinação do linear e do atemporal, a cristandade declarava que a presença de Cristo no mundo era a confirmação do futuro que Deus havia prometido, assim como o futuro de Deus estaria na plena realização da presença de Cristo. O Reino de Deus agora já estava presente e, embora ainda nascente, seria plenamente realizado no final da História com o retorno de Cristo.
Assim como o Êxodo proporcionou a raiz histórica para a esperança judaica no futuro Dia do Senhor, a ressurreição de Cristo e sua reunião com Deus serviu de fundamento para a esperança cristã na futura ressurreição da Humanidade e sua reunião com Deus.
O Deus judaico-cristão não era uma divindade da tribo ou da pólis, mas o verdadeiro Deus supremo - o Criador do Universo, Senhor da História, o Rei dos Reis, onipotente e onisciente, cuja realidade e poder sem rivais capitaneavam com justiça a lealdade de todas as nações e de toda a Humanidade. Na história do povo de Israel, esse Deus entrara no mundo, dissera a sua Palavra através dos profetas e chamara a Humanidade para o seu destino divino: o que nascesse de Israel teria significado histórico no mundo.
Os Elementos Clássicos e a Herança Platônica
A cristandade se disseminou com velocidade espantosa a partir de seu minúsculo núcleo na Galiléia, para mais tarde abranger todo o mundo ocidental. Os seguidores de Jesus, uma geração após sua morte, haviam elaborado uma síntese religiosa e intelectual da nova fé que inspirou a muitos na missão de estender essa fé e preencher as aspirações religiosas e filosóficas de um sofisticado império urbanizado.
Interessantemente, não foram os judeus da Galiléia mais próximos de Jesus - pois só uma pequena fração de judeus tornou-se cristã - que realmente transformaram a cristandade em sua missão universal, mas Paulo, cidadão romano de passado cultural grego. A longo prazo, a nova religião atraiu e teve maior sucesso no mundo helênico.
Enquanto os cristãos de Jerusalém, sob a liderança de Tiago e Pedro, continuavam a exigir a observância das regras judaicas tradicionais sobre os alimentos, Paulo afirmava - sob forte oposição - que a nova liberdade cristã e a esperança da salvação já estavam presentes, tanto para gentios quanto para os judeus que seguiam as leis.
Acabou prevalecendo o universalismo de Paulo sobre o exclusivismo judaico, com enormes repercussões no mundo clássico.
Com a destruição do Templo judaico, pelas tropas romanas, em 70 d. C. , a comunidade cristã em Jerusalém e na Palestina dispersou-se e o elo que mais aproximava a religião cristã do judaísmo foi cortado. Assim, a cristandade consolidaria-se mais como um fenômeno helenístico do que palestino.
É interessante observar, que uma religião cristã universal de proporções mundiais tornou-se viável devido à existência anterior dos impérios de Alexandre e Roma, sem os quais não haveria uma certa unificação das culturas dos povos que circundavam o Mediterrâneo. Foi a Pax Romana que proporcionou a liberdade de movimento e comunicação à propagação da fé cristã. De Paulo a Agostinho, a natureza e as aspirações da nova religião foram decisivamente moldadas pelo contexto greco-romano.
A visão de mundo cristã baseava-se em suas predecessoras clássicas: havia analogias cruciais entre os teores e rituais de cristandade e os das religiões pagãs de mistério, além de absorver os elementos mais eruditos da filosofia helênica. Em pouco tempo, a cristandade descobriu que a filosofia grega não era um simples sistema pagão estranho que deveria ser combatido ,mas, na visão de muitos, ela era a matriz divinamente preparada para a explicação racional da fé cristã.
Na visão de Paulo, Cristo era o arquétipo de toda a criação, que fora moldada segundo ele, convergira para ele e encontrara significado em sua encarnação e ressurreição. A cristandade assim veio a entender todo o movimento da história da Humanidade, inclusive todas as suas diversas religiões e lutas filosóficas, como um desdobramento do plano divino, realizado na vinda de Cristo. E foram as palavras de abertura do evangelho de São João - " No princípio era o Logos (Verbo) "- que potencialmente deram início ao relacionamento da cristandade com a filosofia helênica.
A filosofia platônica não apenas se harmonizava, mas também desenvolvia e aperfeiçoava intelectualmente as concepções cristãs derivadas das revelações do Novo Testamento. Os princípios platônicos fundamentais agora encontravam novo significado no contexto cristão: a existência de uma realidade transcendental de perfeição eterna; a soberania da sabedoria divina no Cosmo; o superioridade do espiritual sobre o material; a ênfase socrática no " cuidado com a alma"; a imortalidade desta e seus elevados imperativos morais; o sentimento da justiça divina depois da morte; a importância de um escrupuloso auto-exame; a advertência para controlar-se paixões e apetites a serviço do Bem e da verdade; o princípio ético de que é melhor sofrer a injustiça do que cometer uma; a crença na morte como transição para uma vida melhor; a existência de uma condição anterior de conhecimento divino agora obscurecido no estado natural limitado do homem; a noção de participação no arquétipo divino; a progressiva assimilação a Deus como meta da aspiração humana. Para muitos dos antigos intelectuais cristãos a tradição platônica era em si uma autêntica expressão da sabedoria divina, capaz de proporcionar uma compreensão metafísica articulada a alguns dos mais profundos mistérios cristãos. A estrutura metafísica da teologia cristã era amplamente platônica.
Em Cristo, o Logos tornou-se Homem: o histórico, o atemporal, o absoluto, o pessoal, o humano e o divino eram um. Através de sua ação redentora, Cristo intervinha como mediador do acesso da alma à realidade transcendente, satisfazendo a busca fundamental do filósofo. A verdadeira fonte da realidade que brilhava fora da caverna de sombras de Platão - a Luz Suprema - agora era reconhecida como a Luz de Cristo.
A filosofia de Plotino, por sua vez, foi essencial na gradual conversão de Agostinho ao Cristianismo. Agostinho considerava Plotino alguém em quem "Platão revivia" e o pensamento de Platão " o mais puro e luminoso em toda a Filosofia" .Agostinho afirmava: " o verdadeiro filósofo é aquele que a ama a Deus". Sua formulação para o platonismo cristão permearia todo o pensamento cristão medieval no Ocidente.
A cultura clássica pode ter sido perecível e finita, mas ela renascia através da cristandade, dotada de vida nova e novo significado. Clemente de Alexandria declarou que a Filosofia havia preparado os gregos para Cristo, assim como a Lei havia preparado os judeus.
Ainda que o pensamento religioso helênico tendesse ao abstrato e analítico, o judaísmo era mais concreto e dinâmico. O Deus de Moisés se declarara único em sua divindade, tinha um relacionamento mais pessoal com a Humanidade e agia com maior liberdade na história do que o absoluto platônico transcendental. O eterno transcendental platônico - Deus Pai e Criador - penetrara o mundo imperfeito e finito da Natureza e da História humana por meio da encarnação de seu Filho, Jesus Cristo, o Logos, cuja vida e morte reuniram novamente dois reinos anteriormente separados: o divino e o humano. Na transição da filosofia grega para a teologia cristã a história da Humanidade tinha agora um significado espiritual.
Topo