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Comunicação e educação
Por Samara Elizabeth
... quanto mais aprimorada for a " leitura de mundo" do indivíduo, mais sujeito ele será; maior será sua capacidade de produzir o novo, interferir na realidade e transformar a sociedade. Isso porque é um indivíduo livre...
Um dos fatores essenciais para o desenvolvimento da linguagem verbal está no processo social de educação, que se inicia com as primeiras orientações dadas pelos pais até a alfabetização promovida pela escola. Nas palavras de Schaff : " Mas a palavra enquanto tal não é inata , e não se desenvolve de uma maneira natural, sem a ingerência do processo social de educação." 1
É a educação que capacita o indivíduo a interagir no mundo de forma consciente. No início desse processo, o indivíduo - até então apenas "objeto" - recebe da sociedade uma visão de mundo pronta - palavras, conceitos, valores - ou seja, recebe a unidade linguagem-pensamento1, assim o seu modo de percepção da realidade está intimamente atrelado a essa bagagem recebida; o indivíduo ainda é apenas um espectador da realidade. Conforme o processo de educação avança, a sua linguagem verbal - portanto o seu pensamento conceptual também - aperfeiçoa-se e o indivíduo se vê dotado de habilidades que lhe permitem pensar criticamente, abstrair e interferir no mundo à sua volta.
Ele é agora o indivíduo-sujeito que pode reelaborar tudo aquilo que recebeu pronto da sociedade; pode reelaborar os discursos que transitaram por esta sociedade e dos quais tomou conhecimento e produzir, ou enunciar, o seu próprio discurso - estabelecer-se como o enunciatário (que recebe)/ enunciador (que emite)2.
" ...aprender a falar significa não apenas aprender a utilizar palavras que a sociedade nos entrega prontas, mas (deveria significar também) aprender a produzi-las. E aprender a produzi-las significa ter uma visão crítica da realidade em que se está inserido e, desse modo, participar do movimento rumo à construção de novas variáveis históricas."
E não há como pensar nessa transformação, sem pensar na ação da educação. Por isso encontramos em Paulo Freire essa preocupação com a alfabetização e a educação: " Uma educação que lhe propiciasse a reflexão sobre o seu próprio poder de refletir e que tivesse sua instrumentalidade, por isso mesmo, no desenvolvimento desse poder, na explicitação de suas potencialidades, de que decorreria sua capacidade de opção." 3
Portanto, quanto mais aprimorada for a " leitura de mundo"4 do indivíduo, mais sujeito ele será; maior será sua capacidade de produzir o novo, interferir na realidade e transformar a sociedade. Isso porque é um indivíduo livre, à medida que tem consciência de suas escolhas, desde o livro que lê, as músicas que ouve, o programa que assiste na tv, até os valores, os conceitos, a filosofia e a ideologia, enfim, que escolherá para orientar e influenciar a sua vida; e sabe identificar as várias ideologias que transitam pelos meios de comunicação.
Há que se atentar ainda para os efeitos da globalização no ensino que prioriza um conteúdo mundial ou global, em detrimento do local. Sendo de extrema importância o cuidado da escola em fortalecer a cultura local e não apenas a global : "...a educação tem que fortalecer uma formação glocal, quer dizer, potenciar os aspectos da cultura global e os aspectos da cultura local." 5
Uma educação fortalecida - e preferencialmente para todos - é garantia de indivíduos criticamente desenvolvidos e portanto, de uma sociedade mais justa e livre.
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Referências Bibliográficas
1. SCHAFF, Adam. Linguagem e conhecimento. Coimbra: Almedina, 1974, p. 250.
2. BACCEGA, Maria Aparecida. Palavra e discurso: história e literatura. São Paulo, Ática, 1995, p. 44.
3. FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977, p. 59. grifo nosso.
4. FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. São Paulo: Cortez, 1983.
5. APARICI, Roberto. Ensino, multimídia e globalização. Comunicação & Educação 14. São Paulo,CCA-ECA-USP; Moderna, jan/abr de 1999. p. 59.
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